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Mostrando postagens com o rótulo Pequenos textos de Wendell O'Hyah

Nem todo mundo que é bom merece o céu

Sentado no topo da minha ignorância.

ben Azazel

És minha entidade favorita o espectro de noites intranquilas e o gosto mais amargo na imensidão do paraíso que eu desejo exorcizar Eu sou filho de Azazel carrego o peso do mundo duma viagem que não tenho volta um fantasma moribundo sob o sol sem fogo nem fumaça para o escoltar Eis que danço como Morte pois enquanto o homem morre o outro mata para a fome dos seus filhos e dos filhos saciar

Saudades de ###

Gostaria de tê-lo visto em outro lugar, mas como era final de mês, encontrei-o na igreja. E lá estava eu na missa como um peixe em águas mansas ouvindo o sacerdote falar sobre coisas que eu não me importava. Ele era religioso, e ter seu corpo junto ao meu exigia estômago de aço para engolir mercúrio. Que saudades que eu tenho de ###, aquele cristão imundo que se esconde de seu deus.

Ele não está errado

Ele não está errado, o corpo é tudo o que tem. E sendo tudo o que tem, deve demasiadamente valorizar. Agora para nós, que temos mais do que um corpo, o narcisismo não serve e nem é natural. Há outras coisas com as quais compartilhar o nosso orgulho, que são o bom caráter, o bom gosto para a música, a contemplação do que não é passageiro nem passível de ser combatido pelo tempo. Eu o entendo, ele não está errado.

1977

vovô morreu no mesmo ano e dia que Bakhtin vovô negro, pobre morreu Bakhtin não vovô era Bakhtin é vovô foi Bakhtin é vovô vira o tombo Bakhtin vira vira fica com deus, vovô

Com cheiro de rio e o encanto de Oxum

20 anos imaculados. Jurava-se incapaz de ter seu corpo atravessado pelo desejo de um homem. Certo dia, encontrou um santo na Capela de São Bernardo (que ficava no cemitério do vilarejo) acendendo velas para os fieis defuntos, que o convidou para um passeio e logo começou a lhe tocar sob os arvoredos do campo pouco iluminado. A passear com o seu corpo temperado com sabor de rio e água doce, apoiou-se sobre uma pedra e abriu as pernas, ao que o santo logo intencionara se adentrar para consumar um ato de profanação no lugar sagrado. Mas romeiros que iam passando ao longe o impediram de se amar; era um campo aberto por debaixo das árvores. Em casa, recebeu batidas na janela que lhe pediam por dez minutos de amor. Tornou-se máculo no Dia de Finados (talvez Deus quisesse dizer que ele ainda estava vivo). Agora acende duas velas para São Bernardo, no Dia de Finados (que é para lembrar data), com a licença de Oxum: “Você parece uma força da natureza. Parece um orixá.” E eis que sente um de...

A cada partida

E cada partida dele é um pedaço meu que se separa do seu calor na madrugada. Nos meus sonhos, uma flor na mão, olhando para o horizonte e a esperança de uma nova e tão afetuosa chegada. Meu amigo se foi, mas voltará pra casa. Eu gosto dele e ele gosta de mim.

O beijo de Leonardo

Sonhei com Leonardo. Eu estava posto em uma mesa escrevendo algo que não lembro o quê, talvez fosse a exteriorização dos sentimentos. Leonardo se aproximava por detrás de mim tocando-me desde os braços até as minhas mãos. Dava-me um beijo na cabeça e me fazia chorar desde o rim. Foi-se logo embora sem que eu pudesse vê-lo face a face nem ouvi-lo falar. Acordei e continuei chorando aqui dentro, pois, quando me toca, morre-me um pouco e sobrevivo só para escrever a dor que sangra no meu peito. Leonardo nunca mais voltou. Foi despedida aquele beijo de Leonardo. Toda a sua casa foi embora. Adeus, Leonardo! O seu banco ficou vazio. Leonardo tomava vinho e fumava cigarros L.A.

Cântico I – De apresentação

Vigia enquanto existe dia Pois a noite a mim pertence Vigia enquanto existe Hinom Pois o verme corre pela minha mão Eu sou a noite e o vapor da madrugada O canto do curiango e o rastejar do sátira A corrida da serpente e o clamor de Lilith Pelo calor de Samael na escuridão Eu sou, eu hei de ser A corda e o patíbulo O rito e o impelidor Quem me evoca pelo nome cairá prostrado ao chão

Presença notívaga

Ao término do jantar, recolhe a mesa deixando apenas o café e a garrafa para não dormir durante a noite (mas é provável que já tenha se tornado um vício para as noites assim como é tão provável que pegue no sono devido à longa jornada do dia). Diante de si, o computador e sua fiel companheira dormindo sob suas pernas para que se sinta protegida no calor dos seus pés. Ambos frágeis, indefesos, vulneráveis. Pratos empilhados, ora amontoados tão perfeitamente bem quanto sua mania de desorganização, na pia e livros de literatura e linguística pela casa formam o cenário perfeito ao lado de seu corpo quase nu e vesgo. Não sabe mais se fala a Deus e, mesmo assim, acende uma vela para Iemanjá, sem tocar o mar, por acreditar no poder acalentador da maternidade. E as portas nunca se abrem. As horas passam e o sono não chega (mas o café já perde seu sabor; passa outro) – a sobriedade o assusta, então se deita na esperança de que um dia poderá dormir em paz.

Desde sempre havia um dez, só o professor que não via

Falar sobre educação no Brasil sempre me lembra certo episódio contado por um colega de turma quando ainda me arriscava com os números no curso de Licenciatura em Matemática. Em suas avaliações costumava ser bastante amigável nas questões propostas, mas sempre havia aqueles alunos que lidavam com as resoluções como quem deseja compreender espírito da política, ainda mais a brasileira. Um aluno obteve nota 0,0 e se sentiu magoado com isso. Levantando um dos lados da camisa e expondo uma arma de pequeno porte enquanto mantinha o dedo indicador sobre o 0,0 estampado na sua prova, penetrou o olhar no olhar acuado do professor: – Parece que estou vendo um 10,0 aqui, professor. O senhor também não? Coitado, o pobre nem relutou: – E não é que é mesmo? Existe um 10,0 bem aqui, meu filho. Traçou o 1 na frente do 0,0 e o aluno fora aprovado com nota máxima não só naquele, mas em todos os exames de matemática. Os conhecimentos acadêmicos do meu colega foram essenciais para a obtenção d...

A entidade presente

Fonte: https://goo.gl/quPJts você é minha entidade favorita o fantasma de noites intranquilas e o gosto amargo em minha boca que eu desejo exorcizar você não sabe o que é amar filho de jah

re.ci.pro.ci.da.de (s.f.)

Fonte: https://goo.gl/aZiveB ( a gente fala em reciprocidade enquanto morre de ciúme tolo duvida do mundo e dos submundos sufoca o outro e cria, assim, um relacionamento tóxico egoísta e possessivo é preciso exorcizar a mente e depois reler o verbete colocar-se no lugar do outro pra não ser hipócrita agir com reciprocidade e SER, então, aquele cara que você pediu a deus ______ Em tempo: re.ci.pro.ci.da.de s.f. (lat. reciprocitas.atis ) algo com que há uma troca, cooperação; sentimento mútuo.

Significados passageiros

Existimos em três direções no tempo. Gostaria de compartilhar minhas angústias com alguém. Assim, dedico estes parágrafos a Thayná Deivilla e André Nascimento. Certa vez, comprei uma camisa polo com a seguinte inscrição na frente: “ trust that an ending is followed by a beginning” (isto é, “acredite que um fim é seguido de um começo”). Dias depois, experienciei perdas que, naquela época, pareciam irreversíveis e de uma dor que jamais seria capaz de controlar. Perdi pessoas, amizades que juraria levar para a vida inteira. Mas, como a música diz, até mesmo o “‘pra sempre’ sempre acaba”. Hoje, percebo que tudo o que se vai é como se tivéssemos acertado as contas com aquelas co isas ou aquelas pessoas, ‘finalizado uma missão’. Na vida, nada é para sempre e o significado mais vivo das coisas estão no hoje, no momento exato em que vos falo. Ao dar as costas para fazer o meu caminho de volta para casa, eu vivo um outro instante munido de novos significados e deixo para trás ...

Face pálida: um canto para o submundo

A tua face pálida e o teu leito contestado Tua palavra oculta e o teu sorriso fosco. Um silêncio forçado pela dor da culpa. A face pálida de alguém que já se foi no seu leito contestado pela morte. A palavra oculta pelo submundo e o sorriso ofuscado pela inexistência. Um silêncio de (in)aceitação forçada e a dor da culpa de quem não se deixou amar a tempo. Imagem : Moça com o Brinco de Pérola , por Johannes Vermeer (c. 1665).

Você é como um bolo

Você é como um bolo sobre a mesa: um bolo sem cereja sobre a mesa. Um bolo sem cobertura sobre a mesa. Um bolo sem dourados sobre a mesa. Você é como um bolo sobre a mesa: assim todo por dentro – sem encanto –, como em uma mesa ornamentada, perdido em meio ao encanto (mal serve para ser comido).

Trying without knowing

Play the video above to start reading. Even wihtout knowing I tried Trying and believing not knowing, or: Knowing and even trying. I tried. And tried. And tried. Nothing won, nothing gained. Even trying. P.S.: Look! He gave me a word AND PUT A SPELL ON ME. ~ Tradução ao português brasileiro. Tentando sem saber Mesmo sem saber tentei Tentando e acreditando não saber, ou: Sabendo e mesmo assim tentando. Tentei. Tentei. E tentei. Nada vencido, nada ganho. Mesmo tentando. P.S.: Vede! Ele me deu uma palavra E ENTÃO LANÇOU UM FEITIÇO EM MIM.

Insight dentro de cinco tweets

Além das questões de gênero, do ponto de vista da língua, não é sempre tão simples reconhecer o gênero de uma pessoa sem, de fato, conhecê-la. Na Itália, Simone, Andrea e Gabrielle são nomes comuns a homens, não a mulheres. Há uma questão cultural nesse sentido. Essa ideologia binária poderia ser abortada, pois põe em risco a paz de espírito de quem não se reconhece através das definições impostas pela convenção social. Eu posso ser homem, mulher, os dois ou nada. OU UMA ÁRVORE. Eu sou aquilo de que me aprazo. Sinceramente? Às vezes, eu gostaria de ter nascido um cacto. Quanto mais o tempo passa, mais eu me decepciono com o rumo que a humanidade está tomando. 🌵 Não, eu não sou nenhum compreendido das questões de identidade de gênero nem de orientação sexual. Eu sou apenas uma pessoa humana, eu me preocupo em ser feliz sem as imposições que são ditadas em casa, no trabalho, no ônibus, na faculdade… Mas hoje eu quero ser poeta pagão para escrever as minhas atitudes profanas e m...

Tenho é medo da margem

Não tenho horror a favela Não tenho horror a favelado Eu tenho é medo da margem E da ponte sobre mim

Saírão raízes dos nossos pés

Quando todos formos velhos, quando todos nos arrastarmos, então sairão raízes de nossos pés e seremos as grandes árvores do Paraíso (na Terra). Itamaracá, alguma data entre 2014/15, mas com gostinho de abril.   SEMPRE TIVE VONTADE de ignorar mais que completamente as pessoas, mas houve um tempo em que eu achava isso um absurdo, pois eu era criança… Fim de tarde. Brisa. Calçada baixa. Rua pouco movimentada. Sentado. Na calçada. Encolhido em minhas pernas magras e a mente num mundo muito longe daqui. Um senhor doze vezes mais velho do que eu se arrastando e apoiando-se em sua bengala luxuosa e um chapéu na cabeça do tipo que os italianos gostam de usar. – Pensando na vida, meu filho? − Qual a pessoa que não pensa na vida, senhor? − Apenas pensei e da mesma forma que se achegara, arrastou as pernas para ir embora de mim subindo a rua e sorrindo tanto quanto eu com as linhas que desenhavam o seu corpo esculpido pelo tempo. Digressão : Depois que...